A Sala do Tempo – Pré-Venda e Primeiro Capítulo

Olá a todos! Os últimos dias foram bastante corridos com o início da pré-venda do meu livro A Sala do Tempo 🙂

O livro pode ser adquirido no site da Editora Madrepérola por R$ 42,90 e frete grátis para todo o Brasil. Você pode usar o PagSeguro (o PayPal brasileiro) para comprar. A data de lançamento oficial será no dia 13 de maio, uma sexta-feira 13 (a única de 2016). A partir dessa data, os livros começarão a ser enviados para as pessoas que adquiriram na pré-venda.

Há alguns posts, eu expliquei um pouco sobre como a ideia para esse livro surgiu e como ele veio a ser conhecido entre milhares de leitores no Wattpad. Quem quiser relembrar, basta clicar aqui.

Você também pode ler o primeiro capítulo da obra no Wattpad e ao fim deste post. Também pode participar do evento de lançamento no Facebook, onde haverá avisos de possíveis sorteios e promoções.

Espero que gostem! 🙂 Seguem algumas fotos para vocês. Deixem suas opiniões nos comentários.

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Quem quiser tirar dúvidas ou falar sobre o livro pode entrar em contato comigo em renanbernardoescritor@gmail.com ou no Twitter e Facebook.


 

A Sala do Tempo

O lugar velho havia sido descoberto por acaso. As vitrines estavam sempre sujas e tudo que um cidadão de bem podia fazer de melhor era ignorar a antiga propriedade, desocupada há mais de dez anos. Sem letreiro e com a fachada escura, o local estava abandonado em meio a outros negócios pacatos da pequena cidade de interior.

O que fez Jonas descobrir o lugar antigo foi a tempestade de um fatídico fim de semana, a mesma que levara embora seu irmão. A chuva forte havia lavado a vitrine suja e revelou um mundo escuro de possibilidades para Jonas. O interior possuía as mais belas pinturas que ele vira em seus míseros treze anos. A arte na parede variava desde deuses egípcios até desenhos psicodélicos com discos e formas estranhas demais para a mente de um menino naquela idade.

Ao que tudo indicava, o local havia sido uma livraria. O que denunciava eram as estantes quebradas abandonadas em um dos cantos. Para Jonas, nada além das imagens eram relevantes e elas serviram de conforto em sua vida após a morte de seu irmão. Sem autorização dos pais, Jonas entrava na velha livraria e passava horas a fio sentado no chão, apenas vislumbrando as belas imagens marcadas pelo tempo. Em sua mente elas ganhavam vida e se moviam, contando infinitas histórias de glórias, amores, batalhas, amizades, fantasias, sonhos e tudo mais que a mente fosse capaz de conceber.

A mãe de Jonas nunca questionou o garoto quando ele disse que havia feito novas amizades e estava brincando pelas ruas da cidade, mas todos os dias Jonas saia do colégio e ia para a livraria velha para deixar sua imaginação fluir. Era sua rotina diária sagrada. Com pouquíssimas exceções, ele visitou o local quase todos os dias do ano, sempre rezando para que não surgisse um novo proprietário, que certamente pintaria as paredes com alguma cor sem vida. O menino perguntou para a mãe se ela havia conhecido o local antes dele fechar e ela lhe contou que o pai dela falava bem, mas quando ela nasceu, a livraria já fora abandonada. Segundo o avô de Jonas, era um lugar com bastante livros e gerenciado por um único homem, o dono, que era cego de um olho e parecia envelhecer muito rapidamente. Certo dia, ele não apareceu e deixou o negócio aberto com todos os seus livros abandonados. A maior parte deles foram doados pela prefeitura da cidade e o local nunca tinha encontrado um novo dono desde então.

No dia do funeral de seu irmão, Jonas afastou-se de sua família por alguns minutos e foi até a esquina do cemitério. Sua mente de criança falhava em entender o fato de que nunca mais veria o irmão. Quando Jonas passou pelo muro, percebeu que um caminhão estava parado bem perto, estampando um sorvete gigante estilizado com a palavra “Sorvetão”. Aproximou-se e um homem veio até ele.

– Boa tarde, rapaz – disse o homem, com um ar divertido. – Há questões na vida que nunca entenderemos. Sei bem como é isso. Quer um sorvete?

– Sim… – respondeu Jonas, esfregando os olhos vermelhos cheios de lágrimas.

O sorveteiro virou-se e entrou no caminhão. Em poucos segundos saiu de lá com um sorvete rosa.

– Esse sorvete tem sabor de tempo – disse ele, o entregando para Jonas.

– Não é morango?

– Não. É de tempo. Um dia o tempo vai lhe curar e a dor da perda de seu irmão será apenas uma distante memória – o sorveteiro sorriu. Jonas notou um brilho em seus dentes, mas não entendeu muito bem suas palavras.

Jonas voltou para o cemitério e comeu o sorvete todo no caminho. Nunca mais lembrou-se da conversa com o sorveteiro.

O tempo passou. Jonas superou a morte do irmão. Ninguém comprou ou alugou a livraria velha.

Três anos depois, quando seu irmão estaria completando dez anos, Jonas resolveu voltar para o local e apreciar as velhas imagens. Era uma forma de tributo ao irmão. Voltando do colégio para casa, fez o antigo caminho que fazia religiosamente três anos antes para passar pela livraria. A poeira já tomara conta da vitrine novamente, mas, com esforço, era possível ver que nada mudara no interior. As mesmas imagens nas paredes sujas diante das velhas estantes com cupins.

Com a mente mais clara naquela época de sua vida, Jonas decidiu fazer o que nunca tinha sequer pensado em fazer: conhecer o restante da livraria. Além da área principal, que certamente fora destinada aos clientes, havia o balcão e, além dele, uma porta para um banheiro e um corredor que levava para uma outra porta ao final, esta de ferro. Jonas seguiu até ela, se perguntando por qual motivo colocariam uma porta de ferro em uma livraria com um visual antiquado. O corredor não possuía as belas pinturas da parte principal. Era escuro e suas paredes eram cinzentas e marcadas por vazamentos. Ao chegar mais perto da porta, Jonas começou a sentir-se tonto. Seu nariz começou a sangrar um pouco. Ele não sabia dizer por que, mas continuou andando mesmo assim. Sua curiosidade falava mais alto.

Encostou na maçaneta pesada da porta e abriu.

Vazio.

Apenas uma sala vazia sem janelas, inteiramente pintada de verde escuro. Jonas ficou um pouco perplexo, apesar da sensação inicial ser de frustração. Imaginou que fosse encontrar mais estantes com livros antigos, mobílias velhas ou coisas do gênero, mas não havia nada e, pelo que podia notar, nem mesmo poeira nas paredes do lugar. A sala era totalmente destoante do restante da velha livraria e parecia ter sido pintada há menos de uma semana.

Após um tempo observando, Jonas localizou um interruptor na parede com um adesivo em cima. Removendo o adesivo, apertou o interruptor e uma luz amarelada iluminou o local. Então havia uma lâmpada! Pelo menos a sala não estava inteiramente vazia como parecia. Amassou o adesivo velho, que exibia um pistoleiro muito mal desenhado, e o jogou porta afora, enquanto fechava para checar atrás. Novamente sentiu uma forte tontura. Viu a sala rodando rapidamente em sua cabeça, como se estivesse no olho de um tornado verde. Encostou-se na parede e aguardou a sensação passar.

“Há algo errado com essa sala…”, pensou Jonas, mas era sua voz de criança falando mais alto. A voz que desejava que as pinturas na parede ganhassem vida e lhe resgatassem do mundo. Provavelmente a tontura era só cansaço de sua árdua e complicada vida de estudante…

Já havia feito o que planejava e tudo que tinha descoberto foi que o restante da velha livraria era extremamente sem graça. Abriu a porta.

O que Jonas viu o fez acreditar que seu cérebro estava pregando uma peça. O adesivo amassado do pistoleiro fez uma trajetória a partir do meio do ar e caiu no chão.

“Como é possível?”, perguntou-se Jonas. Teria o adesivo quicado dezenas de vezes pelo chão do corredor? Isso não fazia sentido. Não respeitava nenhuma lei da física.

Abaixou-se, pegou o pistoleiro amassado e o jogou novamente. O adesivo fez uma trajetória pelo ar e caiu normalmente no chão, como qualquer objeto faria nesse lugar louco que chamavam de “mundo”.

“Deve ter sido consequência das tonturas”, pensou Jonas.

Saiu da livraria abandonada para a rua clara da cidade. Após seus olhos se acostumarem, olhou seu relógio, que marcava 16 horas e 43 minutos e começou a sua caminhada para casa. Menos de dez segundos caminhando, notou que o relógio no topo do banco, que funcionava desde a época de seu bisavô, estava marcando 16 horas e 40 minutos. “Maldita bateria”, pensou Jonas, batendo no seu relógio de pulso. Sem mais atenção para meros detalhes, Jonas seguiu para a sua casa e não veria a sala vazia novamente por mais três anos.

Perplexo: a palavra que definiu Jonas após a reação de Helena. Como ela podia fazer isso com ele após dois anos juntos? Os dois já planejavam até se mudar da pequena cidade para um local mais movimentado e viver uma vida juntos. Como assim ela estava terminando com ele?

Ela disse que o amava, mas que ele era obcecado demais por tudo que acontecia. Na cabeça de Jonas nada disso fazia sentido. Ele nunca se sentiu obcecado por nada mais que doces e biscoitos quando era criança. Obsessão. Era uma palavra forte demais e foi ela que Helena utilizara para descrevê-lo. Não fazia sentido…

Após os longos cinco minutos observando Helena ir embora do píer no lago da cidade, enquanto refletia sobre obsessão e fazia uma autoanálise mental, ele resolveu voltar para casa. Pelo menos o aconchego de sua mãe era garantido. Porém, em seu retorno pensativo, Jonas reparou em seu reflexo triste no vidro imundo de uma loja abandonada. Parou e percebeu que chorava, seus olhos estavam rubros. Obsessão. Obsessão…

Refletindo diante do vidro sujo, Jonas percebeu uma deusa egípcia além da vitrine abandonada. Imediatamente lembrou-se da antiga livraria onde passava boa parte da sua infância refletindo diante de incontáveis imagens. Havia anos que ele não entrava nela. Ele passava por perto frequentemente, mas as memórias já haviam caído para um canto obscuro de seu cérebro. Apesar disso, ainda se lembrava das imagens e da estranha sala vazia nos fundos da livraria.

– Atenção! Atenção! – começou uma voz pelas ruas, que Jonas já conhecia bem. – Sorvetão! Sorvetão! – O caminhão de sorvete da cidade era uma das “obsessões” de Jonas quando ele era pequeno e passava uma vez por semana por todas as ruas da cidade.

Ignorando o caminhão, chocado por ninguém ter adquirido o local durante anos e amargamente feliz por ter conseguido focar em outro assunto além de Helena, Jonas entrou na livraria.

Por dentro tudo era o mesmo. Exatamente o mesmo. Se outras pessoas entravam na livraria que nem ele, não deixavam rastros. A poeira em todo canto, o balcão sujo, as velhas estantes abandonadas nos cantos, as imagens inspiradoras…

Decidiu sentar um pouco no local empoeirado para refletir sobre sua vida, sobre a partida de Helena e sobre sua possível obsessão. Dessa vez, no entanto, Jonas preferiu ter ainda mais privacidade e dirigiu-se para os fundos da livraria. Seus pensamentos seriam sem as imagens inspiradoras, não precisava mais delas. Seriam apenas ele e sua mente em um longo debate sobre obsessão na sala vazia da antiga livraria.

Seguiu pelo corredor escuro, lembrando-se do dia, há três anos, em que fizera o mesmo caminho e abrira a porta de metal da sala. Ao aproximar-se da porta fechada, sentiu uma forte tontura e imediatamente lembrou-se que o mesmo havia acontecido no passado. Mas que diabos? Será que tinha algum tipo de magnetismo na porta? Algum aparato eletrônico que o fazia ficar assim? Mesmo com a dúvida, Jonas abriu a porta.

Por um instante parecia que ele tinha aberto uma porta para um buraco negro… Uma escuridão sem fim invadiu o corredor. Quando você abre uma sala iluminada a partir de um cômodo escuro, a luz invade o cômodo escuro, conquistando cada centímetro até onde fosse possível. Contudo, Jonas teve a impressão de ter acontecido exatamente o inverso. A escuridão da sala se propagou para o corredor mal iluminado pela rua, como uma mão feita de sombra tentando agarrar o resto do mundo.

Após longos segundos, no entanto, tudo pareceu mais normal e a escuridão invasora parecia apenas uma sala apagada. Provavelmente algum truque que seu olho repleto de lágrimas elaborara naquele momento conturbado.

Lembrou-se do interruptor do lado esquerdo da porta e o pressionou. A luz pálida invadiu a sala rapidamente e Jonas notou que três anos não foram suficientes para deixar a poeira entrar pela porta pesada. Jonas recostou-se na parede dura e apenas fitou o verde adiante. Sua cabeça voltava a fazer uma tempestade: Helena, obsessão, tristeza, raiva, planos frustrados, Helena…

Um longo tempo se passou e Jonas pegou no sono. Teve um sono leve, apesar de tudo, e sem sonhos. Acordou um bom tempo depois. Olhou o relógio e viu que tinham se passado três horas. Uau! Um sono de três horas no chão duro de uma sala vazia em uma livraria abandonada. Sua mente realmente não estava bem. Apagou a luz e abriu a pesada porta de metal da sala. A luz da rua era a mesma de antes, o que era estranho, já que ele dormira por três horas. Já era para ter anoitecido. Checou novamente o relógio e saiu da livraria.

– Atenção! Atenção! Sorvetão! Sorvetão! – rugiu o caminhão de sorvete.

“Mas o que? Na minha época ele não repetia lugares…” pensou Jonas enquanto seguia pela calçada de volta para casa, ainda estranhando a claridade do dia. O relógio do banco acusaria algo igualmente bizarro para Jonas, mas ele acabou ignorando e atravessou a ponte que levava até a região que concentrava grande parte das moradias da cidade. Ao chegar do outro lado da ponte, como se por um jogo do destino, deparou-se com Helena.

Os dois pararam e se fitaram por um tempo. Helena tomou a frente.

– Está me seguindo, Jonas?

– Como… – Jonas estava sem palavras. – Te seguindo? Pelo fato de ter encontrado você aqui na ponte?

– Você sabe que esse é o caminho que faço para casa voltando do píer.

– Como diabos eu ia saber que você estava no píer?

Helena o encarou estupefata e colocou as mãos na cintura.

– Você está louco? Você estava comigo há menos de quinze minutos lá, Jonas. Se isso for uma piada, acho que não estamos num bom momento.

– Piada? Quinze minutos? – Jonas estava extremamente confuso. – Olhe a hora! – Estendeu o relógio para Helena.

– O que um relógio errado prova? – disse ela, revirando os olhos. – Deixe-me voltar para casa!

– Errado? – disse Jonas, confuso e checando novamente seu relógio de pulso.

Helena apontou para alguma coisa atrás de Jonas, ainda exibindo um semblante de indignação. Jonas virou-se e viu o relógio do banco marcando 17 horas e 5 minutos. Embasbacado, fitou o relógio, enquanto Helena o deixava mais uma vez.

Perplexo: a palavra que definiu Jonas após checar o relógio do banco. Parado e olhando aquele relógio não conseguia entender o que estava acontecendo, até que um rapaz com um chapéu de caubói passou ao seu lado e uma antiga memória veio à tona. Lembrou-se do adesivo de um pistoleiro e de tê-lo jogado para o lado de fora da sala na livraria.

“Será possível?”, pensou Jonas e correu rapidamente de volta a sala com a porta de ferro na livraria. Ignorando os sons do “sorvetão” e as pessoas olhando confusas para ele na rua, passou rapidamente pela entrada e foi até o corredor escuro. Sentindo apenas uma leve tontura dessa vez, Jonas abriu rapidamente a porta, entrou e fechou-a. Pensou. Tirou a camisa e a amassou da melhor forma possível. Abriu novamente a porta e jogou a camisa para o lado de fora, enquanto trancava-se novamente na sala. Com o coração acelerado, Jonas contou até trinta e abriu novamente a porta. O que viu o fez dar cinco passos para trás. Sua camisa fez uma trajetória a partir do ar e caiu no chão sujo do corredor.

“O que é esse lugar?”, pensou Jonas enquanto pegava a camisa do chão. Fitou a porta de metal durante um longo tempo e começou a analisá-la, procurando algum mecanismo bizarro, alguma porcaria de um painel, qualquer coisa que justificasse o fenômeno. Seria uma experiência militar abandonada? Algum experimento científico que deu errado? Em uma livraria? Isso justificaria a tontura dele! Devia haver algum tipo de magnetismo ou radiação bizarra naquela sala! Tudo que ele precisava fazer era sair dali e nunca mais voltar. Quem ia querer uma sala que faz com que o tempo não passe do lado de fora?

Naquele instante, no entanto, a expressão ganhou um tom especial em sua mente. O tempo não passa. Uma sala. Uma sala com uma porta. Uma mísera sala com uma porta que abre e fecha como qualquer outra. Uma sala e, dentro dela, o tempo passa. Contudo, para quem está dentro dela… o tempo do lado de fora não passa!

Jonas ficou imaginando as infinitas possibilidades que aquele local maravilhoso poderia proporcionar. Seria a sala perigosa? O antigo dono da livraria havia, muito provavelmente, feito dela seu escritório. Será que isso explicaria por que ele sumira? Uma sala. Uma sala que impede que o tempo fora dela passe. Uma maldita sala fora do contínuo temporal do universo. Jonas tinha uma noção básica de física e sabia que não fazia o menor sentido. Não duvidava que algo assim pudesse vir a existir, a ciência certamente teria uma explicação, mas por qual motivo naquela sala dentro de uma livraria velha e abandonada em uma cidade de interior?

Jonas decidiu que a sala não lhe faria mal e ficou um longo tempo nela. Sentou-se no chão e remoeu turbilhões de pensamentos que iam e vinham de sua mente. Dois assuntos eram recorrentes: Helena e a sala. E logo os dois se fundiram e Jonas começou a imaginar de que forma ele poderia provar seu amor para Helena utilizando a sala. Ela devia ter alguma utilidade para ele… Não havia sido por acaso que, quando criança, refletia recostado nas paredes da velha livraria. Não. Aquela sala fora destinada para ele. Não apenas isso, mas a sala era dele agora. Ninguém mais entrava na livraria abandonada.

Jonas pensou e pensou e pensou até se lembrar de algo que Helena sempre disse que desejava.

Era uma noite fria no píer da cidade e ambos estavam sentados em um dos bancos de madeira que enfeitavam o ambiente. O lago refletia a pálida luz da lua minguante e Jonas pensava que aquela sensação boa não deveria nunca terminar.

Terminou, no entanto. Sua própria mente o interrompeu em seu devaneio e o fez derramar lágrimas.

A sensação boa nunca deveria terminar! Jonas forçou-se a relembrar, mesmo que seu coração lamentasse profundamente. Helena falava sobre ela mesma naquela noite e Jonas escutava sua amada. Ela dizia os lugares que desejava conhecer no mundo, o Taj Mahal, o Coliseu e a Floresta Amazônica, enquanto Jonas se imaginava levando-a para conhecer todos esses lugares e muitos outros.

Interrompeu-se novamente. Pelo visto, ele ficaria preso naquela maldita cidade para sempre!

Quando o assunto dos lugares terminou, Helena começou a falar sobre sua paixão por aves e imaginou se algum engenheiro no mundo seria capaz de fazer uma águia mecânica para ela. Em uma festa numa cidade próxima, ela vira uma águia gigante feita de madeira e ferro que, de tempos em tempos, mexia as asas. Depois daquele dia, ter uma águia igual a da festa tinha se tornado um desejo estranho, ela confessou.

– Colocaria na entrada de casa – dissera Helena.

E Jonas se imaginara presenteando a amada com uma águia gigante de madeira e ferro. Pediria para algum engenheiro projetar e pagaria bem caro, mas o importante era ver Helena feliz com a águia gigante na porta de sua casa. Não, na porta da casa deles…

Interrompeu-se. A casa dele não mudaria. Não haveria águia gigante de ferro e madeira. Não haveria amor.

Chorando, Jonas começou a socar a parede da sala. Suas mãos ficaram vermelhas e ele decidiu que daria a águia para Helena. Ele mesmo a faria. Construiria a mais bela águia de ferro e madeira de todos os tempos. Faria ela bater suas asas mecânicas de tempos em tempos e agradaria o amor da sua vida. Se fosse possível, faria a maldita águia ganhar vida e voar e voar e voar e voar… Se isso não fizesse Helena voltar para ele, não havia sentido na vida.

Jonas percebeu que tinha tempo. Todas as obrigações da vida poderiam ser pausadas graças à dádiva divina que era a sala da velha livraria. Suas lágrimas secaram e ele decidiu começar o projeto. Jonas saiu da Sala do Tempo para dar início ao seu grande plano duas horas depois de ter entrado.

– O que está havendo? Aconteceu algo na livraria? – perguntou uma mulher do lado de fora da loja, assim que viu Jonas sair.

– Não… – disse Jonas, confuso, e percebeu que a mulher tinha acabado de vê-lo correr para dentro da livraria. No fundo, o caminhão de sorvete ainda anunciava seu sorvetão. – Essa livraria é imunda… – Adicionou ele, como se para afastar qualquer curiosidade que a moça tivesse de entrar no local.

Três dias depois, a sala da livraria não estava mais vazia. Jonas trouxera uma enorme mesa velha que tinha comprado em uma loja de mobílias usadas. Além disso, também incluiu em seu novo lar alguns abajures, caixas de ferramentas, livros sobre mecânica, construção e engenharia, um livro de fotos de águias e diversos outros apetrechos que lhe ajudariam a construir o projeto que lhe traria seu amor de volta. Além desses objetos, Jonas trouxera uma certa quantidade de comida, uma geladeira e um forno. Para finalizar, um colchão. Jonas levou sete horas para arrumar tudo na sala. Ainda quebrou uma parte da parede, próxima ao interruptor, para puxar uma tomada para seus aparatos. Por alguns segundos, indagou-se como a eletricidade funcionava naquele local espetacular, mas logo esqueceu o assunto. Águias mecânicas eram mais importantes!

Para Jonas, a noite havia chegado. As sete horas de arrumação haviam exaurido suas energias, então jantou um hambúrguer em seu recém-instalado forno e pegou no sono em seu colchonete. O dia seguinte marcaria o início de seu grande projeto.

Jonas acordou oito horas depois com o nariz sangrando, mas com o cérebro a mil. Limpou o sangue com a própria camisa e começou a se organizar. Escreveu um plano de construção para a águia mecânica e começou a ler os livros sobre o assunto. Seu plano era fazê-la em alguns módulos que tornasse a montagem bem fácil e que permitisse que ela passasse por portas pequenas, como a daquela sala… ou da futura casa de Helena – da futura casa deles dois. Era uma jornada diária de doze horas ininterruptas de trabalho. Seu amor estava em jogo, afinal. A partir daquele momento, Jonas só tinha esse foco na vida.

Raros eram os momentos que Jonas saia da sala. Normalmente saia apenas para pegar cinco minutos de ar puro, próximo à vitrine da livraria, mas sem sair de fato. Quando pisava fora da livraria era para comprar comida em um pequeno mercado do outro lado da rua.

Sua obsessão o fez ficar distraído e esquecer a peculiaridade de seu novo modo de vida. Certo dia, enquanto escolhia alguns enlatados no mercado, um homem veio até ele:

– Meu jovem, você está bem? – perguntou ele. – Já é quinta vez em menos de meia hora que você entra no mercado, compra algumas coisas e sai.

– Estou bem sim… – disse Jonas, refletindo pela primeira vez sobre essas saídas para buscar comida.

– Por que não compra tudo de uma vez só? – perguntou o homem.

– Na verdade… – começou Jonas. – Estou fazendo um… é… um… uma experiência para a escola. – Sentiu-se aliviado pelo improviso.

– Experiência? Que interessante!

– Sim! Estou analisando o comportamento dos consumidores.

– E gastando dinheiro para isso?

– Sim, faz parte do estudo – disse Jonas tentando sorrir.

– Então tudo bem! – disse o homem, também sorrindo. – Legal ver esse tipo de iniciativa acontecendo por aqui. Sempre achei as escolas da cidade umas belas porcarias.

Os dois se despediram brevemente e o homem seguiu seu caminho. Jonas decidiu que não seria sábio fazer compras sempre no mesmo mercado, pelo menos não em um período curto de tempo. Ele precisaria prestar atenção nas horas que passava dentro da sala.

Com o tempo, Jonas foi se acostumando com a nova vida e arranjou formas de comprar comida sem atrair atenção do mundo lá fora. Um ano se passou para o rapaz e ele começou a adquirir um aspecto de doente. Suas olheiras já iam quase até a bochecha, ele estava pesando menos de 55kg e sua barba estava grande. O primeiro módulo da águia estava finalmente pronto e era apenas o peitoral. Agora ele percebia o quão difícil era para um jovem aprender todas aquelas técnicas simplesmente através de alguns livros e sem nenhuma outra experiência. Entretanto, ele não desistiria.

Enquanto isso, do lado de fora, o relógio marcava dez horas da manhã do dia seguinte ao do início de seu projeto. Jonas esquecera completamente disso…

E o tempo marchou adiante dentro da sala…

– Um velho morando lá? – perguntou Helena para Joyce.

– Sim! Meu pai viu – disse Joyce. – Enquanto a prefeitura não fizer alguma coisa com o lugar, ele vai continuar abandonado.

– Mas quem é esse velho? – perguntou Helena. – Alguém de fora da cidade?

– Deve ser… Ninguém nunca viu o homem antes – disse Joyce. Ela havia puxado o assunto para forçar Helena a parar de falar do término de seu namoro. – Então tome sempre cuidado quando passar por perto. Não sabemos as intenções desse cara.

– Pode deixar… – disse Helena.

Helena havia terminado o namoro há três semanas e não tinha se recuperado ainda, embora considerasse que tinha feito o mais correto. Desde a conversa louca com Jonas na ponte, não o vira mais pela cidade. A mãe dele estava preocupada, mas explicou que ele tinha deixado uma nota para ela dizendo que foi clarear a mente em uma cidade vizinha. Helena estava triste por ter deixado Jonas magoado, mas ela sabia que era o melhor a ser feito naquele momento de sua vida.

Era seu último dia de férias e provavelmente encontraria Jonas na escola. Isso a deixava preocupada, mas ao mesmo tempo aliviada. Ela queria ver o rapaz novamente e tentar manter uma amizade com ele.

Helena e Joyce partiram dez minutos após a conversa sobre o velho que morava na livraria e quando alcançaram a ponte da cidade, algo totalmente inesperado aconteceu. Helena viu uma enorme águia sendo carregada em um caminhão aberto e seus olhos brilharam de excitação.

– Olhe, Joyce, uma águia de metal! – disse Helena. – Muito bonita!

– Verdade! – exclamou Joyce, observando o caminhão estacionar em uma vaga na outra margem do rio.

As duas se aproximaram do caminhão, determinadas a ver de perto a bela águia de ferro e madeira. Helena ia na frente, empolgada e sem acreditar que aquilo estava em sua própria cidade. Quando chegou ao final da ponte, Joyce segurou seu braço.

– Espere! – disse ela, assustada. – É o velho estranho que mora na livraria que está ao lado do caminhão!

O velho vestia trapos cinzentos e um jeans desbotado, sua barba era longa e seu cabelo era um emaranhado de sujeira. Estava dando dinheiro para um homem que parecia bem confuso, provavelmente o motorista do caminhão. Ao terminar, o velho olhou para as duas meninas se aproximando pela ponte e lágrimas transbordaram em seus olhos cansados.

– Eliana! – gritou ele de braços abertos, fitando Helena e ignorando a existência de Joyce. Helena deu vários passos para trás, assustada. – Eliana! Eu projetei e construí para você o seu maior sonho!

– Desculpe… – disse Helena, bem confusa e afastando-se cada vez mais. – Você deve estar se confundido, não me chamo Eliana.

– Eliana! Não brinque comigo, me dê um abraço, eu te amo! – disse o velho aproximando-se cada vez mais de Helena, ainda de braços abertos.

Joyce segurou o braço da amiga, e as duas se afastaram mais rapidamente, ainda sem dar as costas para o velho louco. Enquanto saíam de perto, o motorista do caminhão julgou que o que estava acontecendo era bem suspeito e aproximou-se do velho.

— Ei, senhor! — disse ele, segurando o seu ombro. — Deixe as meninas em paz.

O velho reagiu com um empurrão e jogou o motorista do caminhão contra a beirada da ponte. Em seguida, correu na direção de Helena.

— Eliana! Sou eu, Jonas! — gritou ele. — Eu realizei seu maior sonho! Venha me agradecer!

— Que? Jonas? Como assim? — disse Helena, ainda se afastando e completamente estupefata com as afirmações do velho.

— Ele está louco, Helena — disse Joyce. — Vamos embora daqui.

— Você queria uma dessas na porta de sua futura casa — disse o velho, parando finalmente. O motorista do caminhão recuperava-se do tombo e olhava assustado para a conversa que acontecia diante dele.

Helena abriu a boca e fitou o velho. Jonas era realmente a única pessoa que sabia sobre aquilo. Teria ele pago algum mendigo para pregar uma peça? Seria ele capaz disso? Aquilo só podia ser seu ex-namorado obsessivo se vingando.

— Vá embora, seu idiota! — gritou Helena com os olhos cheios de lágrimas. — E diga para Jonas sair da minha vida! Nunca mais quero ver a cara dele.

O velho ficou genuinamente chocado com a reação de Eliana. Lágrimas rolavam pelos rostos de ambos. Ele não podia aceitar duas coisas: Eliana não o reconhecia, e ela não queria mais ver a cara dele. Isso não era possível, no entanto. Ele acabara de realizar seu sonho, e ela reagia dessa forma. Claro que não! Eliana só podia estar doente. Decidido, Jonas correu em direção à Helena. As duas meninas começaram a correr, mas Helena tropeçou e caiu. Joyce tentou ajudá-la a se levantar, mas o velho era rápido e agarrou Helena. As duas meninas começaram a gritar e o motorista do caminhão veio novamente correndo na direção de Jonas.

— Solte a garota! — gritou o homem, puxando o velho magro pelos ombros e o jogando no chão.

Jonas ficou deitado e chorando, olhando para o motorista do caminhão. Helena e Joyce começaram a se afastar.

— Eliana! — começou Jonas novamente, dessa vez sem se mexer. — Eu namorei com você por dois anos. Eu moro na Rua da Vitória, número 30, minha mãe se chama Gabrielle. Você me disse que queria uma águia dessas na porta de sua casa quando tivesse uma. Nós sempre passávamos um tempo juntos no píer da cidade. Nossas aulas voltam hoje. Eu te amo!

Helena levou as mãos à boca, chocada com o que o velho disse. Como era possível? Jonas revelara tudo isso para ele? Agora que ela fitava o velho com mais atenção parecia realmente reconhecer os olhos do sujeito. Seria impressão?

O motorista do caminhão colocou-se entre o velho e a garota, preocupado com o que ele ia fazer em seguida. Ainda sentia doer suas costas contundida.

Joyce segurava o braço da amiga e sua boca aberta mostrava que ela estava quase tão transtornada quanto Helena.

— Ela se mexe… — disse Jonas sorrindo. — Tem um mecanismo interno que a faz bater as asas. Fiz para você…

— Quem é você? — perguntou Helena, mais calma agora que o velho não tentava ajudá-la.

— Jonas! Meu amor, sou eu! Eu juro!

— Isso não é possível — disse ela. — Você tem uns quarenta anos a mais que Jonas.

— Quarenta anos? — disse Jonas, surpreso. — Eu posso estar cansado, passei um bom tempo construindo isso para você…

— Um bom tempo? Faz três semanas que terminei o namoro com Jonas. Você está louco!

— Três… semanas? — disse Jonas, chocado com a afirmação da moça.

— O que você fez com Jonas? — perguntou Helena, sua cabeça começando a imaginar se o velho não teria feito alguma maldade com seu ex-namorado.

— Eu sou Jonas, Eliana, meu amor! Como você não me reconhece?

— Meu nome nem é Eliana… Eu me chamo Helena. Acho que Jonas saberia meu nome…

Essa foi a frase decisiva. Jonas arregalou os olhos e começou a tremer, seus lábios pendendo tortos de sua boca. Helena! Sim, era Helena! Quando se esquecera do nome de sua amada? Foi a maldita sala. A maldita sala devia ser cheia de radiação. Foi a sala. Foi a sala. FOI A SALA! A sala que… que… A sala que apagava a memória das pessoas! Era essa a característica da sala? Achava que havia mais alguma coisa em relação à ela que ele não estava conseguindo lembrar. Não importa! A sala havia estragado ele e agora ele não era digno do amor de Helena. A vida não tinha mais sentido.

Jonas levantou-se vagarosamente, deixando o motorista atento para qualquer atitude que ele fosse tomar, e seguiu até a beirada da ponte. Olhou para baixo. O rio corria veloz naquela parte da cidade, carregando galhos, folhas e pedras. Virou-se uma última vez para Helena e disse:

— Helena, eu te amo!

Subiu rapidamente na beirada da ponte e jogou-se no rio. Helena e Joyce gritaram muito alto. O motorista confuso correu até a beirada, mas foi tarde demais. Jonas bateu a cabeça em uma pedra e seu corpo ficou preso em uma raiz.

A polícia chegou apenas três minutos depois do suicídio e confirmou a morte do homem. As duas meninas arrasadas e o motorista confuso tiveram que depor na delegacia da cidade. Eles contaram toda a história para a polícia. Durante duas semanas, Helena ansiou pelo retorno de Jonas. Precisava contar para ele sobre o ocorrido e descobrir o que de fato acontecera. Enquanto isso, a polícia continuava a investigar e tentava descobrir quem era o velho suicida.

Quando duas semanas se passaram, no entanto, Jonas foi dado como desaparecido. Helena chorou durante muitos meses e, durante os anos seguintes, se perguntou diariamente se seria possível o velho realmente ser Jonas. A polícia, por sua vez, descobrira que o velho viveu um tempo na livraria abandonada da cidade, mas, ao investigarem o local, tudo que encontraram foi estantes com livros velhos, um banheiro imundo e uma sala estranhamente limpa, mas completamente vazia. Isso foi tudo que a polícia conseguiu sobre o estranho Velho da Ponte, como ficou conhecido nos anos seguintes, depois do caso ter sido arquivado.

O tempo — sempre ele — passou, Helena acabou se casando e mudou-se da cidade. Oito anos após o ocorrido, com a mente fresca, Helena viu uma foto da cidade exibindo o relógio sobre o banco e lembrou-se da estranha conversa com Jonas apenas quinze minutos depois de terem terminado o namoro. Jonas lhe mostrara o seu relógio marcando a hora errada e ficara estupefato com a hora indicada no relógio do banco… Seria possível?

Sim, seria. Ela não sabia, mas Jonas e o Velho da Ponte voltariam a conturbar sua vida.

***

— Negócio fechado — disse o homem de terno para o comprador. — Acredito que você fará um excelente uso do local.

— Espero que sim! — disse, feliz, o comprador da antiga livraria, que sete anos antes havia sido morada do Velho da Ponte. — Pretendo transformá-la na maior lanchonete da cidade!

— E conseguirá! — disse o homem de terno sorridente. Um de seus dentes era brilhante e refletiu com a luz do abajur aceso.

Quando o comprador foi embora, o homem tirou rapidamente o terno desconfortável e vestiu uma roupa branca. Saiu para a garagem do edifício e entrou em seu caminhão que tinha escrito “Sorvetão” junto ao desenho estilizado de um grande sorvete. Ao pressionar um botão, o veículo começou a berrar: “Atenção! Atenção! Sorvetão! Sorvetão!”. Era mais um dia de labuta para ele, mas o que importava era que sua livraria tinha um novo dono e sua sala favorita teria um novo hóspede. Fazia tempo desde o menino Jonas e sua mente ansiava em demasia por alguém na sala. Ela era sua própria obsessão.

 

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4 comentários

    • Oi, Tiago! Que bom que gostou da história 🙂 Não vai se arrepender. Rola autógrafo sim! Só temos que combinar direitinho pq o livro sai de Londrina e eu sou do RJ. Hahahaha. Você é de onde?

      Obrigado pelo apoio!

      Abraços

      Curtir

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