Construção de Personagem – Sr. Sorvetão

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Construir personagens é uma tarefa árdua para o escritor. Você começa com um molde, coloca os olhos, a boca, o cabelo, o porte físico e daí em diante. Agora você tem um boneco. Você precisa dar vida a ele, criar um comportamento, trejeitos e hábitos. Quando essa parte estiver pronta também, você precisa iniciar a tarefa mais difícil de todas: dar profundidade ao personagem. Torná-lo alguém com que seu leitor possa se importar. É claro que dependendo do livro, não há necessidade para se aventurar profundamente em tantos detalhes.

Com isso em mente, vou explicar para vocês como se desenrolou um pouco da criação do Sr. Sorvetão, o principal antagonista de A Sala do Tempo, e o que podemos extrair de aprendizado para quem gosta de escrever. O texto contém spoilers, então a partir daqui a leitura será por sua conta e risco. 🙂

Na minha mente, o Sr. Sorvetão surgiu como um mero figurante misterioso. Seria apenas um homem que conhece a Sala do Tempo e a usa para propósitos maléficos. No entanto, o personagem foi crescendo e tomando forma a partir dos rascunhos que sucederam o primeiro capítulo. Eu também precisei conhecê-lo ao longo da história. Tudo que eu sabia é que ele era um velho insano.

Com seu jeito divertido, dente brilhante e caminhão peculiar, eu posso assumir que o Sr. Sorvetão é uma inspiração no Parcimonioso (Pennywise), palhaço aterrorizante da obra A Coisa de Stephen King. Mas diferente dele, que representa o medo, o Sr. Sorvetão é a ingenuidade e, acima de tudo, a ironia e o sarcasmo.

Após o desenvolvimento dos primeiros diálogos do Sr. Sorvetão, ele ficou definido como um personagem extremamente sarcástico, dissimulado, um homem (um ser) que não demonstra raiva, mas finge com escárnio demonstrar piedade e generosidade. Um ludibriador. Na história, ele é comparado à figura bíblica do Diabo, mas as características traiçoeiras do deus nórdico Loki ou do mito brasileiro do Curupira também estão incrustadas no sorveteiro.

Com a personalidade desenvolvida, o Sr. Sorvetão precisava de uma arma. Ele era uma pessoa idosa e mesmo sendo um ser sobrenatural, o sorveteiro necessitava espalhar o mal. E ele faz isso através de seus sorvetes. A inclusão dos sorvetes como um elemento do personagem me deixou com algumas inseguranças na hora de escrevê-lo (mesmo ele sendo um sorveteiro), mas após os leitores do Wattpad terem comentado, percebi que tinha sido uma boa escolha. A maior das aflições gerada pelo personagem está no mais simples dos atos. Como oferecer um sorvete para um estranho, por exemplo.

E o personagem tinha ainda outra arma. A mais crucial de todas e que dá o título ao livro. Suas salas do tempo são representações de lugares onde um grande mal aconteceu. O diabólico sorveteiro é capaz de manipular o tempo em lugares fechados que tenha essa “mancha”. Essa foi uma decisão de última hora, já no planejamento do último capítulo “O Padre, o Louco e o Sorveteiro”, mas que acabou moldando alguns aspectos do período de reescrita.

O que é possível aprender com o Sr. Sorvetão?

Mistério

O Sr. Sorvetão é misterioso. Nem sempre é válida a inclusão de um antagonista que só aparece em momentos-chave e é cercado por uma aura de mistério. Conheça o intuito de sua história. A Sala do Tempo é uma história na qual uma boa dose de mistério e suspense é necessária para que ela funcione. Um antagonista do qual pouco se sabe ajuda a moldar a curiosidade do leitor nesse caso.

Infantilidade

Antagonistas com atitudes infantis devem ser bem trabalhados para não se tornarem completamente risíveis. O Sr. Sorvetão é um personagem risível, mas também sarcástico. Além disso, as consequências de seus atos já são suficientes para não transformar o livro em uma obra humorística.

O mundo real

Há incontáveis formas de se criar um antagonista para um livro de terror. Algumas delas são gerar um senhor de trevas, um monstro ou um espírito. Todas são eficazes se bem trabalhadas. No entanto, existe uma outra forma que me agrada bastante e foi utilizada na criação do Sr. Sorvetão. Essa forma é a utilização de elementos cotidianos e banais. Um sorveteiro sorridente não inspira medo de imediato, mas através de suas ações, o leitor enxerga que o mais simples dos atos ou o mais comum dos objetos pode ser aterrorizante. Um sorvete deixa de ser uma sobremesa agradável para se transformar em um símbolo do mal.

E isso não vale apenas para o terror. Um bom exercício é pegar um elemento banal e torná-lo significante para o seu leitor. Faça isso como exercício. Transforme um fósforo, uma gravata, um copo ou até mesmo um punhado de sujeira em algo importante, que faça sua história se movimentar. Experimente com o novo! Sempre ajuda.

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Espero que tenham gostado! Se quiserem conselhos, dicas, deixar críticas ou opiniões, podem comentar no tópico ou entrar em contato comigo pelo Twitter, Wattpad ou Facebook. Inscreva-se no blog ali do lado direito para ficar antenado nas novidades! 🙂

Quer conhecer mais do Sr. Sorvetão? A Sala do Tempo já está disponível neste link. Todos que comprarem também ganharão um marcador de páginas.

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Uma última informação: em breve, o meu conto de ficção científica O Último Dia será publicado lá no Wattpad.

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